Gestão de tecnologia Decisão 6 min de leitura
Antes de contratar qualquer tecnologia, responda esta pergunta
Por Cristhian Schmidtke ·

Sua empresa decide tecnologia na urgência ou na evidência?
Se a resposta é “porque o pessoal está reclamando” ou “porque o concorrente tem”, você está em boa companhia: é assim que muita empresa pequena compra sistema. O problema aparece meses depois, quando a licença continua sendo paga e ninguém usa.
Em resumo: antes de contratar qualquer tecnologia, responda por escrito a esta pergunta: “Esse sistema resolve qual problema específico do meu negócio, e como vou saber que resolveu?” Se a resposta não ficar clara, a compra é cedo demais.
Por que essa pergunta muda a decisão?
Porque ela obriga a separar duas coisas que costumam vir misturadas: o problema e a ferramenta.
“Vamos contratar um CRM” é uma ferramenta. “Estamos perdendo clientes depois da primeira compra porque ninguém acompanha quem sumiu, e queremos ver todo mês quem está inativo” é um problema, com um jeito de medir. Só a segunda frase permite escolher bem, negociar com o fornecedor e, depois, saber se valeu a pena.
A pergunta tem duas metades, e as duas importam:
- Qual problema específico? Não vale “melhorar a gestão”. Vale “parar de perder pedido que chega pelo WhatsApp fora do horário”.
- Como vou saber que resolveu? Um número, um prazo ou uma tarefa que deixa de ser feita à mão.
Como isso aparece na prática?
Um cliente nosso tinha uma equipe que esquecia tarefas rotineiras: conferir o estoque, confirmar agendamentos. O resultado eram atrasos, produto em falta e um diretor que passava o dia lembrando as pessoas. O problema, dito com precisão, era: as tarefas combinadas não eram lembradas na hora certa.
Com o problema nomeado, a solução ficou simples: lembretes automáticos no WhatsApp, em horários combinados, cerca de 180 mensagens por dia para a equipe. E o jeito de saber se funcionou também ficou claro: tarefas feitas no prazo, pedidos de estoque antes da falta e, quando algo não era feito, o registro de que o aviso tinha sido enviado.
Repare que a decisão não começou na ferramenta. Começou na pergunta.
O que a pesquisa diz sobre decisões de tecnologia?
Três dados conferidos em fonte primária ajudam a dar dimensão. Eles falam de grandes projetos, mas o raciocínio vale para a sua empresa:
- Transformações digitais: em um estudo da BCG de 2020, só 30% das transformações digitais atingiram ou superaram o valor esperado e geraram mudança duradoura. Outros 44% criaram algum valor, mas ficaram abaixo da meta, e 26% entregaram menos da metade do valor previsto.
- Requisitos: segundo o PMI (Pulse of the Profession, 2014), 47% dos projetos malsucedidos não atingiram os objetivos por falhas na gestão dos requisitos, isto é, por não ter ficado claro o que o projeto precisava entregar.
- Inteligência artificial: em julho de 2024, a Gartner previu que pelo menos 30% dos projetos de IA generativa seriam abandonados depois da prova de conceito até o fim de 2025, por dados ruins, controle de risco insuficiente, custo crescente ou valor de negócio pouco claro. É uma previsão, não uma medição.
Você talvez já tenha ouvido que “70% das transformações digitais falham”. É um número muito repetido, mas as análises que tentaram achar a origem dele não encontraram um estudo com método claro por trás. O dado mais próximo de uma medição é o da BCG acima: 30% dão certo, e os outros 70% ficam aquém, de formas bem diferentes.
Sua empresa está pronta para essa tecnologia?
A prontidão não é uma característica do sistema. É da empresa. Na nossa experiência, a compra está madura quando você consegue dizer “sim” a estas quatro afirmações:
- Consigo descrever o problema operacional com detalhe.
- Existe uma pessoa na diretoria ou na gestão que vai usar o resultado.
- Meus dados estão minimamente organizados para o sistema trabalhar.
- Sei como vou medir se o problema foi resolvido.
Faltou uma? O investimento é prematuro. A quarta é a mais esquecida: se ninguém sabe como medir o sucesso, ninguém vai saber se valeu a pena.
Quem deve responder?
Não é tarefa só do responsável por TI. A pergunta deve ser respondida por três pessoas: quem sente o problema (a operação), quem decide (o gestor) e quem paga (o financeiro). Quando a decisão sai de uma área só, as outras não entendem por que precisam usar aquilo e não colaboram.
Quanto tempo essa resposta vale?
É uma regra prática nossa, não um dado de pesquisa: em uma empresa estável, a resposta costuma valer de 12 a 18 meses. Em uma empresa crescendo rápido, vale revisar a cada 6 meses. Coloque a data da revisão no mesmo papel em que escreveu a resposta.
Responda sinceramente
Qual foi a pergunta por trás da sua última compra de tecnologia? Se for difícil lembrar, talvez seja a hora de mudar o método.
Na próxima vez que um vendedor mostrar um sistema brilhante, ou que um concorrente anunciar uma novidade, não comece pedindo demonstração. Comece escrevendo a resposta para a pergunta desta página. Se ela ficar clara, você está no caminho certo. Se não, você acabou de evitar um desperdício.
Quer testar a sua resposta com alguém de fora? Fazemos um diagnóstico para isso. Fale com a Amex e conte o cenário.
Uma versão mais curta deste texto saiu na coluna da Associação de Tecnologia de Ponta Grossa, em 28/09/2026: leia na ATPG.
Fontes
- BCG, Companies Can Flip the Odds of Success in Digital Transformations from 30% to 80%, 29/10/2020.
- PMI, Requirements Management: Core Competency for Project and Program Success, Pulse of the Profession, 2014.
- Gartner, Gartner Predicts 30% of Generative AI Projects Will Be Abandoned After Proof of Concept By End of 2025, 29/07/2024.
Primeiro a empresa. Depois a ferramenta.
Se o cenário deste artigo é parecido com o da sua empresa, o próximo passo é entender o seu caso antes de escolher qualquer sistema.
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Conhecer o StarterCristhian Schmidtke é fundador da Amex Gestão, em Ponta Grossa/PR. Formado em Sistemas de Informação, pós-graduado em Governança de TI e cursando MBA em Inteligência Artificial, reúne 25 anos de experiência em tecnologia e a transformou em uma metodologia própria, o Método Dominus. Membro da ATPG. Seu foco: simplificar a gestão, ampliar o controle e impulsionar resultados.
